Causas e Consequências

Neste bimestre primaveril, estamos com enfoque na Sabedoria da Causalidade, do Buda Verde.
A Causalidade é algo que está permanentemente bem diante dos nossos olhos, em toda parte, mas não necessariamente conseguimos sempre nos dar conta dela.
Na escola, comecei a trazer o tema de forma quase despretensiosa, em nossa roda de conversa, sondando os conhecimentos prévios das crianças sobre o assunto. Parti da pergunta de quem sabia o que significava a palavra consequência. Algumas crianças disseram que sabiam, e falaram que consequencia era por exemplo ficar de castigo se fizesse algo errado. Basicamente a noção de consequência que eles tinham era essa. Em seguida busquei trazer novos elementos para enriquecer o olhar deles, dizendo que consequência era uma coisa que acontecia a partir de uma causa, e aí lancei vários exemplos em forma de pergunta:

se a gente jogar água em uma coisa o que acontece?
– molha!

se encostar fogo em alguma coisa o que acontece?
– queima

e se a gente dormir mal de noite?
– a gente fica cansado

e se a gente girar muito muito muito?
– fica tonto

e se a gente demorar muito pra comer?
– fica com muita fome

Então fomos assim conversando sobre vários exemplos, e eles foram vendo claramente a relação entre causas e consequências. Ficamos assim, e percebi que depois, em outros momentos, as crianças entre elas trouxeram o assunto de novo, demonstrando que tinha sido interessante. Por isso, decidi no dia seguinte retomar, sistematizando um pouco esse aprendizado na forma de um trabalho. Cada criança iria eleger uma causa e uma consequência, e ilustrar, acrescentando uma legenda textual aos desenhos.
No dia seguinte então retomamos o assunto, pedi que contassem o que lembravam e dessem exemplos de causas e consequências, fui anotando na lousa e cada um escolheu qual situação iria ilustrar.

 

Depois de terem feito o trabalho, na hora do lanche, uma das frutas oferecidas era melão, fruta que está recém começando a ser oferecida pois não era oferecida no inverno. Alguns ficaram muito felizes com o melão, outros nem tanto. Não havia muitos pedaços, apenas um para cada criança, então os que não queriam muito podiam oferecer para outra criança que quisesse mais, e todos quiseram oferecer para Júlia. Daí me ocorreu perguntar: qual será a causa de todo mundo querer oferecer seu pedaço de melão para a Júlia? É que ela é legal com os outros, então eles ficam com vontade de retribuir. Eu disse que essa era uma consequencia de ela tratar bem as pessoas – e o Otávio disse: mas Profe, isso não é uma consequência, porque é uma coisa boa!!! Assim, tive a oportunidade de reforçar mais claramente que consequência não é só uma coisa ruim – causas boas levam a consequências boas, e causas ruins levam a consequências ruins. Procurarei seguir explicitando o tema não de forma expostiva propriamente, mas apenas ajudando eles a aprofundar o raciocínio sobre o assunto, a partir de situações que o cotidiano nos proporcionar. Quem quiser ampliar a conversa em casa também, seja bem vindo =)

 

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Pneus

Queridos,

seguimos buscando soluções junto com as crianças para deixar nosso espaço mais agradável e divertido, utilizando os materiais que estão ao nosso alcance. Há algumas semanas as crianças já tinham recolhido vários pneus que estavam nos arredores do CEBB junto com o professor Marcelo pela manhã. Já tínhamos pesquisado alguns brinquedos com pneus e esta semana iniciamos alguns trabalhos com eles.

Selecionamos o que faríamos e planejamos previamente, com a produção dos desenhos aqui compartilhados.

Em seguida, pusemos a mão na massa.

Também, devido a futuras construções no espaço da escola, resolvemos localizar as nossas interferências numa área mais limitada, e por isso recolhemos brinquedos com cordas e arvorismo que estavam espalhados ao redor da escola e remontamos neste mesmo lugar, em frente à nossa sala. Para isso, nos dividimos em dois grupos – o grupo dos pneus, com orientação do Milton, e o grupo do arvorismo, com orientação minha e do Gui, que veio nos ajudar.

O resultado animou muito as crianças ao longo de toda a semana, e não só as do fundamental – também crianças do maternal e jardim se alegraram, especialmente com o novo balanço.

Nos resta agora continuar o brinquedo de equilíbrio (pneus enterrados pela metade no chão em sequencia) e também embelezar o espaço. As crianças querem pintar e colorir os pneus, vamos pesquisar juntos como viabilizar isso =)

Construindo um canteiro juntos

Em uma semana fria de final de inverno, um sexta-feira clareou de sol brilhante – seria um ótimo dia para estar fora e esquentar o corpo, boa oportunidade para construirmos um canteiro juntos. Já havíamos olhado áreas onde o sol bate mais tempo ao redor da nossa sala, então conversamos um pouco sobre isso e escolhemos o local.

Ao planejar como trabalharíamos, sentados em roda no tapete central da sala, uma criança trouxe a reflexão: “profe, mas lá na pracinha também precisamos combinar regras!” Outros concordaram e as crianças começaram espontaneamente a listar e discutir regras e combinações para o bom uso do espaço externo. Coisas como: não sujar,  não fazer xixi no mato, cuidar das plantas etc. Espontaneamente, eles se levantaram, pegaram seus cadernos e lápis, voltaram para o tapete e começaram a escrever as regras que tinham acabado de criar. Um perguntava ao outro como se escreve algo que tinha dúvida. A esta altura, eu apenas assistia, meio surpresa, meio encantada, sem interferir; me sentia praticamente uma figurante e já tinha deixado meu planejamento e minha postura de condução embaixo do tapete enquanto as crianças trabalhavam sozinhas. Por ser uma situação preciosa e por estar apenas ao lado do processo, pude fotografar o momento deles para compartilhar com vocês.

 

Quando acabaram essa etapa, retomei o planejamento. Sentamos nas carteiras, pensamos o que precisaríamos fazer para construir o canteiro, listamos as etapas de trabalho e depois nos dividimos em grupos (fui anotando na lousa a partir da conversa e fomos lendo juntos). Depois, as crianças da outra turma chegaram, terminamos as combinações e saimos para executar, cada um tendo clareza da sua tarefa lá fora. Assim cumprimos também a parte prática, um pouco antes do lanche e um pouco mais depois. Mesmo no recreio vários quiseram vir trabalhar com a enxada e avançar no preparo da terra, salvando as minhocas como têm aprendido nas aulas de horta (agroecologia) com a professora Cida.

Como etapa final, registramos o trabalho e a lista de plantas que colocamos ali – temperinhos, medicinais e chás, bem ao lado da nossa janela 🙂

Situações contextualizadas de escrita e leitura

O projeto Nosso Espaço tem nos oferecido situações significativas para escrita e leitura. Se as crianças já estão motivadas a aprender pelo simples gosto de aprender, mais ainda ficam quando aquilo está relacionado a objetivos e sonhos compartilhados com relação ao seu contexto imediato. Aqui, uma pequena galeria com algumas situações de escrita, a maioria delas partindo de uma escrita e releituras coletivas seguidas de registro individual. Há cartazes para campanha, diário de atividades, lista de materiais e registro de reunião.

Nas atividades de planejamento, também introduzimos elementos de tratamento da informação, especialmente tabelas para divisão de grupos de trabalho e listas das etapas de planejamento. O aspecto artístico do registro é intencional, buscando desenvolver uma inclinação para o capricho e o fazer bem feito, envolvendo a sensibilidade.

Jogo das pedras

 

Nosso grupo no ensino fundamental tem crianças de segundo e primeiro anos. Estávamos precisando estudar/relembrar a noção de unidades, dezenas e introduzir as centenas. Resolvi fazer tudo bem completo, bem do início, de algum jeito que ficasse simples e claro para todos. Como não encontrei um gancho direto dentro do aspecto prático do nosso projeto em andamento, o Projeto Nosso Espaço, criei um gancho por dentro da história que estamos trabalhando como inspiração.

As pedras de  Caetano

Na história, um amigo de Francisco, chamado Caetano, na lida diária da aldeia, encontrou em uma gruta pedras azuis brilhantes em abundância. Como ele era aprendiz de ferreiro, passou a usar algumas daquelas pedras para decorar e enfeitar peças de metal que produzia para a aldeia. Naquele ano, a colheita de grãos havia sido fraca, porém, no rebanho de ovelhas, havia lã em abundância e de muita qualidade. Por isso, Francisco resolveu ir à cidade mais próxima, à feira que ficava na praça central, para onde iam produtores dos mais diversos lugares. Caetano foi junto e, caminhando em meio à diversidade da feira, encontrou um expositor de jóias de uma região vizinha que tinha pedras amarelas muito lindas, faiscantes como o sol. Caetano ficou fascinado, e como havia levado um saquinho com suas pedras azuis, propôs ao outro trocar uma pedra azul por uma daquelas lindas pedras amarelas. O outro, porém, disse: “minhas pedras são muito, muito difíceis de encontrar, ficam muito fundas na rocha, é preciso descer muito e usar lanternas especiais, e ainda são difíceis de extrair, então acho melhor não trocar”. Caetano ficou triste, seguiu caminhando e pensando… Refletiu que realmente suas pedras azuis eram fáceis de extrair, ficavam perto da entrada da gruta e havia pedras em abundância. Sendo assim, ele teve uma ideia! Voltou até o outro e propôs: “e se eu trocar dez das minhas pedras azuis por uma de sua amarela?” O outro pensou que poderia ser uma vantagem, pois assim poderia fazer dez jóias ao invés de uma. Achou uma troca justa, e aceitou a compra. Caetano voltou muito feliz para casa, e a partir daí sempre levava montinhos de 10 pedras azuis para trocar por amarelas. Um outro dia de feira, chegou um comerciante muito diferente, de um país distante. Ele tinha pedras vermelhas enormes, lindíssimas e muito raras, ainda mais difíceis de encontrar que as amarelas. Assim, Caetano só conseguiu uma pedra vermelha dessas trocando por 10 amarelas!! E fez com essa única pedra vermelha uma jóia tão linda e tão rara que deu de presente à própria rainha do seu país.

 

O jogo

A partir dessa imagem, passamos a jogar o jogo das pedras. Cada criança montou um dado e em duplas passaram a jogar com pedrinhas azuis, amarelas e vermelhas. Cada jogada de dado correspondia a uma quantidade de pedras azuis que entrava no tabuleiro. Completando 10 azuis, podiam trocar por uma amarela, e seguiam jogando o dado para pegar mais azuis e trocar por amarelas. Vence quem consegue chegar a 10 amarelas primeiro e trocar por uma vermelha. Interrompemos o jogo algumas vezes para contar coletivamente os pontos de todos e registrar.

Ficou muito fácil e muito visível para eles registrar os pontos no QVL (quadro valor lugar) porque na primeira faixa, a das unidades, que pintei de azul, anotamos quantas pedrinhas azuis cada um tinha. Na segunda faixa, amarela, anotamos quantas pedras amarelas. Assim ficou muito fácil treinar as anotações, e em seguida podíamos treinar a leitura dos números, e também escrever por extenso. Os mais adiantados jogaram várias partidas e registraram os pontos de forma cumulativa, chegando a números altos além de 300 pontos. Muitas habilidades de contagem simultâneas foram sendo desenvolvidas com essa atividade oferecendo uma ótima gradação desde coisas mais simples até mais complexas, contemplando os diferentes pontos em que as crianças estão e ajudando todos a avançarem juntos. Por isso, jogamos esse jogo vários dias esta semana, e as próprias crianças pediam para jogar e passaram a registrar seus pontos dentro do QVL espontaneamente. Isso me ensina que de fato o aprendizado com alegria promove a autonomia.

Abaixo alguns registros das pontuações e exercícios com as noções de dezena, centena e unidade a partir da experiência no jogo.

 

uma inspiração

No contexto do projeto Nosso Espaço, busquei encontrar uma forma de, para além do aspecto pragmático das intervenções e planejamentos, buscar uma forma de sutilizar o olhar das crianças com relação ao trabalho e inspirar um olhar elevado para o processo de que estamos vivendo. Como fazer isso? De maneira indireta, comecei a trabalhar uma história associada a um poema encenado, que traz a imagem de Francisco, um jovem de muitas habilidades que recebeu de presente uma terra onde pôde constituir o seu cantinho de vida e beleza. Aqui, um trechinho do poema.

 


Coro
Em busca de uma terra pra morar,
um chão em que pudesse cultivar,
Francisco seu cantinho construiu;
amor e persistência ele uniu
pra tudo com cuidado embelezar.

Francisco
Preciso desta terra pra viver,
pois nela meu sustento vai crescer.
As plantas que podem me alimentar,
preciso de água boa pra regar,
do sol que vem o mundo aquecer,
do ar que nos permite respirar.

Coro
Com muito amor, Francisco trabalhou
e amigo de todos se tornou:
pessoas, plantas e animais,
considerava a todos seus iguais.
Enquanto trabalhava, o seu cantar
se espalhava alegre pelo ar.

 


 

Os ensaios da peça-poema, em paralelo ao trabalho concreto do projeto, já tem nos rendido inspirações de fato. Não tinha nos ocorrido antes, mas em meio aos ensaios nos ocorreu: por que não criar coisas para os animais na nossa pracinha – e não apenas para nós mesmos? Podemos instalar comedouros para as aves e insetos, banheiras para os sabiás no alto verão, jardins para as borboletas. Afinal, compartilhamos esse espaço com muitos seres. O olhar da professora Amanda capturou um pouco dessa experiência e dessa beleza nos arredores da escola, que compartilhamos aqui =)

 

 

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Galeria

Nosso Espaço

Queridos,

neste segundo semestre, quantas mudanças! A escola crescendo, seu espaço surgindo agora mais claramente diante dos nossos olhos! Uma cerca, como uma pele, apareceu para nos dar essa visão, e dentro dela um bosque, que já estava sempre ali, se arrumou para receber as crianças, com suas brincadeiras. Não sei se há melhor lugar que o meio das árvores para brincar quando criança… talvez a beira da praia… Mas que delícia são as árvores e seus entremeios para brincar. Os cintilares dos raios de sol entre elas. Os pássaros e insetos que por ali vivem. Há sempre tanto a investigar, a descobrir.

De pronto imaginamos que este seria um ótimo projeto para a volta as aulas, no mês de agosto, mês ainda de Buda Vermelho. Como podemos melhor habitar esse espaço? Melhor significá-lo? Melhor intervir nele? Como as crianças se conectam o espaço? Que sonhos teriam para ele? Que brinquedos e enriquecimentos surgir? Que habilidades precisamos desenvolver para isso? Precisamos planejar, analisar, avaliar, fazer alianças, buscar materiais…

Em duas semanas cumpridas de projeto, muito já fizemos.

Primeiro olhamos o espaço, e desenhamos de forma estimada toda a área da escola. Nomeamos e nos aproximamos de cada espaço: prédio do jardim, prédio do fundamental e maternal, telhado verde, caminhos, pracinha do bosque (que assim batizamos), caixa de areia dos bebês, e o matinho (trecho de mato fechado dentro da área cercada). Os esboços vocês podem ver acima =)

Em uma rodada de sonhos, as crianças pensaram e expuseram livremente os brinquedos e intervenções que gostariam de gerar ali. Imaginamos como poderíamos avançar, elegemos prioridades, nos dividimos em grupos, cada grupo pensou em um professor que pudesse apoiar cada uma das ideias escolhidas. Mas não apenas planejamos, também colocamos a mão na massa já na primeira semana, limpando o espaço. Também protegemos as mudas de Juçara que haviam sido plantadas em mutirão pelas famílias ao longo do caminho e que haviam em seguida ficado vulneráveis.

 

Chamamos uma reunião com os professores eleitos como apoiadores do projeto, e nela pensamos em como conseguir material (bem simples – madeiras reaproveitadas, cordas, pneus, bambus, tecidos). Começamos uma campanha com as famílias e comunidade.
Até aqui, já temos o apoio concreto do Milton, pai do maternal e integrante do núcleo dos espaços na mandala de famílias. Ele construiu uma pirâmide de Bambu que já está disponível na pracinha, e se dispôs a apoiar novas construções =)

Também já recebemos vários pneus. Estamos precisando de cordas para fazer balanços e teias de subir.

A ajuda de todos é muito, muito bem vinda!!!